logo
A powerful architecture & Construction theme. Construct your website in the perfect Ratio.
Alienum phaedrum torquatos nec eu, vis detraxit periculis ex, nihil expetendis in mei. Mei an pericula

Arquitetura e Fábricas. Uma oportunidade em aberto.

Centre Georges Pompidou / Renzo Piano Building Workshop + Richard Rogers. Edifício inspirado na arquitetura industrial e ícone da arquitetura dos anos 80.

As fábricas desde sempre estiveram relacionadas com a actividade humana.

Um dos aspectos mais interessantes é a imagem utópica e industrial. Esta imagem determina a arquitectura funcional e vernácula de todos os edifícios e povoados. A fábrica fixa populações muitas vezes provenientes de lugares longínquos.

Este é o local da Queens Dock, uma antiga doca de 61 Hectares foi usado para a exportação de mercadorias de Glasgow. O comércio de tabaco, algodão, carvão, ferro e produtos químicos durante a Revolução Industrial, foi a atividade mais importante na exportação dentro e fora da cidade que tornaram Glasgow uma cidade próspera. A construção naval também proporcionou uma grande atividade comercial, antes de entrar em colapso após a Primeira Guerra Mundial. Recentemente, antiga doca foi reconvertida num centro de lazer e atividades lúdicas.

Observando a maioria das fábricas, um pouco por todo o Mundo, é fantástico o aspecto aparentemente modesto, a interacção com o planeamento e definição das opções infraestruturais locais. Uma fábrica pode ser apenas uma barraca sombria ou pelo contrário, uma estrutura extremamente inspiradora. A imagem da fábrica traduz-se pela metáfora do progresso e mudança, uma imagem sublime e ao mesmo tempo romântica. É uma estrutura organizadora, do ponto de vista social, económico e arquitectónico. Os edifícios industriais são normalmente lógicos, inovadores nos materiais e nos sistemas de construção.

Desde o séc. XVIII que as fábricas foram marcos decisivos na revolução técnica e social, na inovação, no design e progresso, na política e na economia. Nenhum outro edifício nos dá uma noção tão clara de modernidade, nas construções radicais muitas vezes exageradas que proporcionaram edifícios aparentemente inimagináveis. Depois do séc. XVIII, muitos lugares reinventaram-se e aplicaram soluções práticas proporcionando um intercâmbio tecnológico. A fábrica passou a ter um papel preponderante nesta redefinição do território.

Queens Dock, Glasgow

Gasometros da Matinha,Lisboa

Com o séc. XX, a evolução da fábrica para a produção em série, cria um novo fascínio e transforma-se num potente ícone arquitectónico. Mas na pós-modernidade, as cidades industriais tiveram que novamente redefinir-se e transformar as suas áreas industriais em pólos de atracção para o ócio, desporto, centros de congressos e por vezes em lugares para viver.

Grande parte das fábricas abandonaram as cidades e deslocaram-se para o campo na maioria das vezes perto de universidades, onde a nova versão contemporânea da fábrica, silenciosa e contida, que passou a laboratório, lida muito mais com as ideias do que com metais pesados. O homem e a mulher têm agora também os mesmos direitos.

A fábrica ainda hoje é uma fonte de inspiração para o pensamento arquitectónico. È necessária uma enorme experiência, para projectar com sucesso um edifício de alta tecnologia, a baixo custo, prático, flexível e que seja agradável para trabalhar.

Museu CAN FRAMIS / Fundação VILA CASAS, Barcelona. Reconversão de uma antiga fábrica em museu e espaço de exposições.

Mas a cidade do séc. XXI terá que ser novamente reinventada. A era industrial deu lugar na maioria dos casos a baldios e zonas extremamente degradadas. É o caso de Turim em Itália, que após a retirada da Fiat, da fábrica do Lingotto na década de 80, abriu caminho a uma triste degradação ambiental. A gigantesca fábrica, implantada numa área de 40 hectares e que foi um ícone da arquitectura moderna, com a sua fantástica pista de ensaios na cobertura, ficou à mercê dos especuladores e construtores, que queriam a sua demolição para aí erguerem toda uma zona nova da cidade. Felizmente isto não veio a acontecer e preservou-se um dos edifícios mais emblemáticos da construção moderna do principio do séc. XX da autoria de Matté Trucco. A mega estrutura foi pioneira no uso dinâmico da cobertura e inspirou os arquitectos modernos como Le Corbusier, que quando a visitou, ficou extasiado com as possibilidades do uso da cobertura do edíficio.

 

Fábrica Lingotto, Turim.

Hoje reactivada e reutilizada para um novo propósito, foi transformada em confortáveis quartos de hotel, escritórios modernos, centros comerciais, centro de exposições, salas de congressos e a pista aproveitada para velometro, jogging  e no fundo como acolhimento a homens e mulheres de negócios, que viajam por todo o Mundo e sofrem do “jet-lagged”. O projecto de requalificação, da autoria do arquitecto Italiano Renzo Piano, transformou um simbolo da era da máquina num templo do século XXI.

Fábrica Lingotto, Turim. Vista da antiga pista de ensaios de automóveis, atualmente velometro.

Também, a renovação do grande parque industrial de Ruhr, demonstrou que é possível reinventar a cidade pós-industrial.

Numa área que se estende de este a oeste, a norte de Dusseldorf, onde anteriormente estava o maior centro mineiro e siderúrgico da Alemanha e do Mundo, hoje encontra-se um magnífico parque verde. Historicamente, a região do Ruhr, no séc. XIX tornou-se num dos pólos industriais mais importante da Europa na extracção de minério. Com o rápido crescimento industrial, o território sofreu profundas mutações, Dortmund, Duisburg e Essen, em vez de crescerem em torno da catedral e do núcleo histórico, cresceram em função da indústria e da extracção de minério. Mas depois da segunda Guerra Mundial, uma série de fenómenos económicos provocaram um profundo declínio que associados ao inquinamento ambiental fizeram com que esta vasta área ficasse abandonada. No ano de 1989, 17 câmaras pertencentes a este centro industrial e mineiro da Alemanha, juntaram-se em consórcio para dar vida a uma grande operação de requalificação do território industrial, dotando-o de estruturas adequadas através de um financiamento justo. As prioridades na revitalização deste espaço, foram desde logo, criar as condições territoriais necessárias para proporcionar novos investimentos.

Parque industrial de Duisburg Norte, Ruhr. Alemanha.

De um ponto de vista arquitectónico, houve a necessidade de valorizar a história industrial, através de sinais que estimularam a memória colectiva. Este interesse pela arquitectura a que se juntou a arte, surgiu de uma idiossincrasia que está ligada a esta região, por ser a zona da Europa com maior concentração de estruturas, actividades e iniciativas, públicas e privadas, ligadas à arte.

Parque industrial de Duisburg Norte, Ruhr. Alemanha.

Assim, o Parque do Emscher em Duisburg norte, Ruhr, foi construído num contexto caracterizado pela presença de enormes fábricas, de montanhas de resíduos industriais, de grandes vias ferroviárias e viárias, de um rio transformado num autêntico esgoto a céu aberto, de um ambiente inquinado, transformado num caos urbanístico e com uma taxa de desocupação das maiores da Europa. A transformação, centrou-se no desenvolvimento económico, requalificação urbanística e ecológica, reconstrução da paisagem e melhoramento do sistema fluvial. Mas, foi fundamentalmente a recuperação da arqueologia industrial associada à viabilidade económica, que tornou inédita esta operação.

Criaram-se novos postos de trabalho, um parque verde, espaços de habitação, actividades sociais, culturais e desportivas.

Duisburg Norte, Ruhr 1990

O projecto foi desenvolvido em três fases distintas; Em primeiro lugar apresentou-se um programa de incentivos para cativar entidades privadas, com o objectivo de angariar verbas de modo a realizar toda a descontaminação do lugar. Na 2ª fase, procedeu-se à recuperação do rio, eliminando todas as estruturas de betão e criou-se no espaço descontaminado, um sistema articulado de espelhos de água, zonas húmidas e cursos de água à superfície. Alguns escombros de inertes que não constituíam perigo, serviram para realizar enormes esculturas de terra, colinas e pirâmides. Noutras áreas pelo contrário, foi colocada uma grande quantidade de terreno fértil para permitir o crescimento rápido da vegetação.

A limpeza das águas do rio, foi realizada com micro purificadores, reduzindo-se desta forma o impacto ambiental.

Duisburg Norte, Ruhr 1990

Na 3ª fase procedeu-se à recuperação, requalificação e reutilização dos edifícios industriais. Em memória de outros tempos, fez-se a requalificação das velhas instalações de extracção de minérios, algumas das quais, projectadas por arquitectos com fama internacional, como por exemplo a intervenção de Schupp e Kremmer (1932) para a Zeche Zollverein Schacht XII, Essen.

A estrutura de maior destaque, entre outras, como símbolo da arqueologia industrial de Ruhr, é um imponente cilindro de trezentos e cinquenta metros cúbicos, com uma altura de 117 metros e um diâmetro de 68, todo recuperado, graças a financiamentos públicos regionais. Este gasómetro é gerido com base numa convenção, do Centro Comercial e do Tempo livre. Desta forma, transformou-se num centro cultural polifuncional, onde se organizam iniciativas culturais e exposições. Existe também um elevador panorâmico, que se eleva até ao topo, permitindo a vista sobre a bacia fluvial de Emscher.

O grande reservatório que antigamente continha gás, em que a matéria-prima era a produção de energia, transformou-se num reservatório de cultura e de energia intelectual.

Duisburg Norte, Ruhr 1990

 

Em 1970, o arquitecto catalão, Ricardo Bofill construiu a sua casa e atelier “architectural workshop” numa antiga fábrica de cimento.

 

A recuperação da decrépita fábrica, levou praticamente dois anos a transformar-se num ambiente íntimo e diversificado. Esta transformação, tal como em Ruhr, revelou-se um grande sucesso na composição e organização do espaço arquitectónico. A reorganização da antiga fábrica e a transformação em edifícios residenciais, ficou marcada pelo entendimento minucioso por parte do projectista, de todos os silos, passagens subterrâneas e salas de maquinaria. A desmontagem das unidades industriais, permitiu chegar a uma simplificação formal com apenas estruturas de cimento à vista.

 

Antiga fábrica de cimento nos arredores de Barcelona transformada num complexo do atelier Ricardo Bofill.

A transformação da paisagem envolvente foi a fase final de todo o projecto. Extensas áreas verdes foram delimitadas por Eucaliptos, Palmeiras, Oliveiras e Ameixoeiras. Uma mistura entre relva, árvores, trepadeiras e cilindros de betão armado, que atribuem hoje a este local, uma aura de grande qualidade arquitectónica e ao mesmo tempo a sensação de estarmos perante uma ruína romântica.

Como já é habitual na arquitectura de Ricardo Bofill, os elementos clássicos conjugaram-se com os silos, dando lugar a janelas e portas numa clara evocação à arquitectura Romana. Actualmente, parece que os elementos decorativos sempre existiram,  pela cumplicidade que criaram com os antigos silos de cimento. Obviamente que, o interior já não é o mesmo. Pintado de branco deu lugar a espaços de trabalho mas, no exterior as superfícies curvas que já existiam continuam a ser as mesmas.

O complexo tem também uma área bastante grande com um silo de grande envergadura ao qual foi atribuído o nome de “Catedral”, para concertos, exposições e eventos culturais associados à arquitectura.

Atelier Ricardo Bofill.

Também os silos para armazenamento de cereais, tal como os das fábricas de cimento, são um símbolo da era industrial, um modelo de uma sociedade e de uma arquitectura sustentável.

Quando observamos os silos em geral, inseridos por exemplo numa paisagem natural, como numa qualquer “Garden City”, estes assumem-se como autênticas catedrais, a partir dos quais, todo o aglomerado urbano se organiza. Em direcção aos silos convergem linhas de caminho de ferro, redes viárias e as mais diferentes infra-estruturas. Os silos impõe-se na paisagem, como uma Catedral Gótica se impõe pela sua magnificência. Os silos são verdadeiramente as Catedrais da era Industrial “não poluente”.

Atelier Ricardo Bofill.

O arquitecto pós moderno Aldo Rossi, escreveu a propósito dos grandes silos de armazenamento de cereais Americanos que, “a grande simplicidade da América é vasta e os Europeus ao fugirem da Europa descobriram a memória da arquitectura europeia nos primeiros silos de madeira. Com a evolução no tempo, os silos evoluíram e criaram a paisagem de um Novo Mundo, abandonando a problemática da forma e redescobriram a arquitectura.” Aldo Rossi referia-se aos grandes silos, que cresceram ao longo das novas vias de caminho de ferro do Midwest no último século nos Estados Unidos da América, primeiro em madeira inflamável, depois com revestimento ceramico, metal, e por último em betão armado.

Este é um dos aspectos mais interessantes que caracteriza os silos a par do valor patrimonial e iconográfico que desde cedo  foi reconhecido pelos grandes mestres do movimento moderno.

Interior da Antiga fábrica de cimento nos arredores de Barcelona transformada num complexo do atelier Ricardo Bofill.

Hoje, abandonados tal como sucedeu a muitas outras unidades industriais, os grandes silos de armazenamento de cereais, deram lugar a zonas degradadas, baldios, com infra-estruturas ferroviárias e viárias desactivadas.

Em Portugal por exemplo, o parque industrial agrícola que surgiu com os primeiros silos inicialmente através da  E.P.A.C., está praticamente inactivo. Actualmente por alteração de estratégia do governo português criou-se a Silopor, empresa de Silos Portuários, Sa , que de certa forma originou a extinção da E.P.A.C. e a desactivação de grande parte dos silos regionais. Será então possível reabilitar os silos de armazenamento de cereais, da mesma forma que foi reabilitada a fábrica de extracção de minérios em Ruhr ou como fez Ricardo Bofill na cimenteira abandonada nos arredores de Barcelona?

Interior do atelier Ricardo Bofill.

 

Interior do atelier Ricardo Bofill.

 

Vista aéria da Antiga fábrica de cimento nos arredores de Barcelona transformada num complexo do atelier Ricardo Bofill.

 

O arquitecto Tomás Taveira preservou a memória da fábrica Lusitânia, no edifício pós-modernista que projectou para o outro lado da Avenida João XXI em Lisboa

Texto: Nuno Ladeiro