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Arquitetura espiritual

O Cemitério de Boliqueime, tal como define o famoso teórico NORBERG-SCHULZ no livro que escreveu sobre “genius loci – para uma fenomenologia na Arquitetura” interpreta o espírito do local e surpreende, pela forma racional, como o autor interpretou o génio do lugar.

Para Luís Guerreiro, autor do projeto de arquitetura, deve haver sempre na primeira atitude de um projetista, uma aproximação ao lugar e um entendimento do espírito desse lugar, do conjunto de características socioculturais, arquitetónicas, de linguagem, de hábitos, que caracterizam, o ambiente, e a cidade. Os cemitérios europeus são muitas vezes uma continuidade das cidades, tanto pela sua estrutura de organização como pelas barreiras que criam. Em Boliqueime, Luís Guerreiro, pensou desde o primeiro momento, num cemitério aberto à paisagem. Tanto pela topografia do terreno, como pela necessidade de quebrar as barreiras que tantas vezes delimitam estes espaços de culto.

Um cemitério desempenha um papel fundamental e para o autor deve ser sempre universal. Por vezes existe algum conservadorismo que condiciona a atitude do arquiteto. O poder político acaba por ser sempre a maior barreira, porque as pessoas, os utilizadores que visitam os seus entes queridos adaptam-se e aqui em particular, já elogiam a forma como o projeto foi conduzido mesmo antes de estar inaugurado.

Para Luís Guerreiro, o cemitério de Boliqueime é uma malha orgânica em colisão com a reticula matemática dos ossários que olham o mar. Esta estrutura de ossos, uma espécie de cidade de ossos, constituída por uma arquitetura fragmentada é um sinal de morte e ao mesmo tempo, uma estrutura de abandono de todos os acessórios associados à vida. Esta nova casa poderá tornar-se numa caixa ou uma espécie de esqueleto que transforma a forma pura que o tempo reduziu ao essencial. Para o autor, houve uma deliberada intenção de criar uma estrutura funerária, proposta como garantia de sobrevivência dos defuntos na memória coletiva que estabelece os limites entre vida e morte, uma abordagem à vida e à morte.

O piso inferior do cemitério é composto por um somatório de fragmentos que formam uma analogia indireta às catacumbas que eram os locais que serviam de cemitério subterrâneo aos primeiros aderentes do cristianismo, para quem a fé se baseava na esperança da vida eterna após a morte. De acordo com estudos realizados pelo autor, as catacumbas começaram por ser exploradas e estudadas por António Bosio (1575-1629) e desenvolvidas por Juan Bautista de Rossi (1822- 1894), considerado o fundador, pai da arqueologia cristã e responsável pela exploração das catacumbas de S. Calixto.

As catacumbas são formadas por quilómetros de galerias labirínticas que albergam nichos retangulares chamados lóculos (com capacidade para albergar um único cadáver) que eram fechados com placas de mármore em que se pintava uma inscrição ou o nome do defunto com o símbolo do Cristianismo. As catacumbas eram iluminadas com lamparinas de azeite ou através de lucernas que garantiam uma iluminação zenital natural. Com

frequência se criavam redomas com perfumes de maneira a invocar determinadas células escritas do Evangelho.

No nível superior do Cemitério existe uma vista semiesferoidal numa base conceptual de neutralidade imposta pelas superfícies de vidro transparente da capela, dos espelhados dos jazigos e das foscas cabeceiras iluminadas e fossilizadas artificialmente por rostos que desenterram memórias de vida.

Esta é claramente uma ideia transcendental do tratamento barroco com o dinamismo, os contrastes mais fortes, dramaticidade, exuberância e realismo, a manifestar uma tensão entre o gosto pela materialidade opulenta e as demandas de uma vida espiritual. Para o autor, a cobertura da Capela, desempenha um papel fundamental. A superfície em betão branco armado com a forma de um paraboloide hiperbólico que aponta o céu Nascente e cobre a capela, denúncia uma espiral em baixo relevo que segundo o autor “deforma-se em direção a Nascente como se morrêssemos e depois fossemos lentamente re-encarnados na ótica da filosofia médio oriental e Cristã, em que existe um novo mundo para além deste”.

Os jazigos são revestidos com aço inox altamente polido para produzir a reflexão regular dos raios luminosos e das imagens dos objetos que pontilham a envolvente. Para o autor “esta reprodução é emitida em direto obrigando, por parte de quem por lá circula, a entender que é parte contaminada da morte que lá habita a convergir em uníssono para o infinito global da Eternidade”.

A peça de arte de Christian Boltanski chamada o “Relicário” de 1990 que para Luís Guerreiro representa um resgatar da memória na ótica de compreender o presente e vacinar o futuro, inspirou a composição formal dos ossários, e em particular as frentes dos gavetões. Citando o autor “nesta peça encontramos um nó de fumegantes, enevoadas e cadavéricas fotografias a preto e branco extraídas de um retrato de 1939, no qual foram fixadas as imagens de um grupo de crianças judias, na altura em que estavam a festejar a vida de Ester, que salvou os judeus da destruição em 473 A.C., durante a ocupação Persa. Instalada na penumbra a peça é iluminada por pequenas lâmpadas incandescentes que geram ténues focos de luz. Envolvidas por gavetas materializadas com latas de bolachas metálicas invocando urnas que suportam um arquivo comovente operado pelos sentimentos de perda e pelos remorsos: Um memorial ao holocausto nazi”.

FICHA TÉCNICA

Localização: Boliqueime

Novembro de 2006

Promotor: Câmara Municipal de Loulé

(Eng. Custódio Guerreiro e Arqº. Paisagista Paulo Viegas)

Arquitectura: Arqº Luís Marcos Guerreiro

Colaboradores: Arqª Vera Moreno Vidal, Arqª Carla Simões e Claudia Couto.

Electricidade: Eng. Pina Ribeiro

Especialidade: Eng. Isabel Viegas (Progótica)

Medidor Orçamentista: Carlos Silvestre

Topografia: José Filhó e Rui Mendonça

Fiscalização: Eng. Silvério Guerreiro e Carlos Paulino.

Construtora: ACA

Director de Obra: Eng. André Lourenço

Área de implantação num terreno com cerca de 3985m2

Edificado de apoio ocupa 220m2